Dança: À procura do reconhecimento
- 27 de nov. de 2016
- 6 min de leitura
A dança é mais do que uma arte na cultura portuguesa. Para muitos, dançar é uma aprendizagem contínua e muito exigente, que nem sempre é valorizada. Agora, a internacionalização parece ser o único caminho a seguir para os bailarinos conquistarem o seu reconhecimento.
Texto Maria Inês Martins
Em Portugal, o estado da dança deve ser visto sob diversos pontos de vista, pelos coreógrafos, pelos diversos estilos e géneros de dança existentes, os espaços de apresentação e outros contextos de enquadramento e visionamento público. Estamos num pais em que os apoios estatais às artes performativas, que têm circunstâncias e necessidades específicas, são insuficientes para assegurar um regular crescimento destas áreas. E é neste mesmo país, que quem dança classifica esta arte como “uma forma de expressão”.
Mónica Guerreiro é doutoranda em Ciências da Comunicação, encontra-se a desenvolver uma investigação sobre as artes performativas. Crítica de dança e autora da biografia Olga Roriz, sobre a vida e obra da coreógrafa portuguesa, esta especialista considera que “a dança é um dos pontos mais frágeis da cultura a nível de documentação”. O livro editado pela Assírio e Alvim surgiu, precisamente, “pela possibilidade de contribuir para a história da dança contemporânea portuguesa”.
Como conhecedora do tema, Mónica Guerreiro afirma que “um crítico é um espectador especialista, ou seja, pelo seu acesso às fontes e pela experiência acumulada detém um conjunto de informação que um “civil”, à partida, poderá não ter”. Há que saber criticar, e, em Portugal, existem espectadores bem informados e conscientes de como vão argumentar um dado objeto artístico. A crítica garante ainda que “maus profissionais existem em todas as profissões”. E acrescenta. “Não creio que em Portugal tenhamos um problema com a qualidade da crítica. Para os bailarinos, as críticas são fundamentais, após a prestação numa competição, seguem-se as críticas e nem todos sabem lidar com elas”.
As competições permitem aos bailarinos mostrar o seu trabalho e, consequentemente serem avaliados pela prestação. “São parte integrante e indispensável da minha formação”, refere Diogo de Oliveira de 18 anos, o primeiro bailarino português a ser convidado a ingressar École de Danse de l’Ópera National de Paris. Qualquer competição permite ao bailarino mostrar em palco o resultado de centenas de horas de trabalho, por vezes, em apenas dois minutos.
Num concurso de dança não existe o conceito de representação nacional. Cada concorrente passa por um rigoroso processo, onde é avaliado, e pode ser aceite ou não em função do seu mérito profissional. Diogo de Oliveira afirma que as críticas permitem corrigir erros, melhorar o desempenho. “Não imagino como não se evolui sem se ser criticado/avaliado”.
O jornalismo português, que funcionava outrora como uma ponte entre a dança e o público, deixou, na opinião de Mónica Guerreiro, “de investir em artigos com críticas sobre dança. Atualmente não é publicada praticamente nenhuma crítica nas artes do espetáculo”. A crítica Mónica Guerreiro vê os talent shows como uma forma de dar visibilidade a um intérprete específico, que esteja mais preocupado com a projeção mediática.
Carlota de Bastos Carreira tem 20 anos e é bailarina profissional. No ano de 2015, participou no programa “Achas que Sabes dançar?” e afirma que a sua prestação não alterou muita coisa: “Talvez os followers do instagram tenha sido a maior mudança.” O facto de ter participado num programa de televisão, não a tornou melhor nem pior bailarina. A única diferença que aponta é que o facto de o público conhecer agora o seu trabalho. Carlota de Bastos Carreira tem consciência de que se trata “de um programa de entretenimento para um público leigo que passa a maior parte do tempo a julgar com base na cara, no corpo, na personalidade, e não no talento”. Depois disso, continua, “trata-se sim, de um concursos onde os bailarinos lutam pelo reconhecimento e pelo “spotlight”.
A participação televisiva trouxe a Carlota de Bastos Carreira mais visibilidade apenas para o público em geral, pois já tinha ingressado no mundo profissional antes do programa. Acredita que foi uma grande conquista porque não foi fácil para nenhum dos participantes e conseguiria aguentar, mais tempo no programa se fosse necessário. A sua paixão pela dança começou aos 3 anos de idade. No entanto, este sentimento foi-se tornando sério quando percebeu que acordava feliz porque sabia que ia dançar o dia inteiro ou porque começou a perceber que nada a preenchia tanto como dançar. Começou a sua carreira com o ballet clássico. Estudou na Escola de Dança do Conservatório Nacional, durante oito anos, e garante que foi o que a mais desafiou porque “é o que fala mais diretamente com a minha alma”. Reforça ainda que, atualmente, não faz do ballet clássico a sua profissão, mas não deixa de ser aquilo que “mais transpira o meu nome”.
O futuro da dança em Portugal depende de muitos fatores e Mónica Guerreiro defende: “Vivemos num país com muitos e bons criadores, que são autores de linguagens próprias marcadas e vibrantes, que corporizam em trabalhos que muitas vezes se aproximam da obra-prima”. Desde o ano de 1990 até aos dias de hoje, que em Portugal existe um leque rico e diverso com dezenas de coreógrafos e companhias ativos, mesmo sendo difícil de os manter.
Portugal não é, de todo, o país da dança. Muitos pensam em internacionalizar-se, porque os apoios estatais que existem relativamente as artes e, particularmente, às artes performativas em geral são escassas. Mónica Guerreiro garante ainda que “deveríamos caminhar para um modelo de maior reconhecimento e investimento nas artes performativas”. Carlota de Bastos Carreira considera que viver da dança é uma realidade apenas possível a alguns profissionais. “Se considerarmos um bailarino que trabalha numa companhia nacional de bailado, é possível viver só da dança, sim”. Em concordância está Diogo de Oliveira, que acredita que, em Portugal, é possível viver do ballet, apesar de existir apenas uma companhia nacional de bailado. “No entanto, isso só se admite a um pequeno número de bailarinos. Creio, porém, que uma boa parte dos atuais alunos que pretendem ser bailarinos não espera ficar em Portugal”, refere.
Por outro lado, e segundo Carlota de Bastos Carreira, “se falarmos de todos os freelancers, que estão no meio da dança urbana/comercial, e que são sempre os mesmos para qualquer estilo de dança, para qualquer tipo de conteúdo então sim, é possível viver somente disso”. Ou ainda podemos considerar os artistas que estão prontos para um mercado de trabalho que não existe no nosso país, e os artistas “por variadas razões não se submetem a aceitar projetos com os quais não se identificam, não acreditam, e que não têm qualidade artística simplesmente para ganhar uns trocos ao final do mês”. A bailarina revê-se ainda um pouco neste último aspeto e confessa que “nessa perspetiva é impossível viver da arte que é dançar”.
Na nossa cultura existe cada vez menos o apreço e o interesse pelas artes, e desta forma, Carlota de Bastos Carreira acredita que “os bailarinos não têm o devido reconhecimento”. E justifica: “Somos as maiores vítimas da falta de desinteresse do povo português pelas artes, comparando a quantidade de talent shows de música nos canais televisivos, com a quantidade de talent shows de dança por ano, que são poucos.” Acrescenta ainda, que “nem o povo, nem o Governo estão prontos a financiar ainda mais um fardo, essa grande chatice: a arte.”
Quando se fala num futuro solista sénior português, Diogo de Oliveira rejeita a hipótese de o ser no nosso país. “Espero começar o meu percurso profissional numa companhia internacional.” E lamenta que, “em relação ao ballet, exista uma grande discrepância, pois um aluno de ballet tem uma carga horária semanal superior à de um aluno do ensino regular. Ainda se inclui os concursos e as audições. Tudo depende do ministério da educação”. Carlota de Bastos Carreira lembra que no Conservatório onde estudou são formados todos os anos os próximos bailarinos de Portugal. “Exatamente, onde caem pedras e bocados de teto, onde chove dentro dos nossos estúdios, onde faz um frio gélido que não permite condições saudáveis para o corpo humano, o nosso único instrumento de trabalho”, lamenta.
Todos desejam o mesmo: um futuro sólido para a dança em Portugal e, principalmente, para quem dança e encara a profissão como algo mais do que simples passos sincronizados. Nos palcos da dança nacionais existe ritmo, e movimento, mas sobretudo existe muita paixão pela arte de dançar, falta o reconhecimento “Que mérito tem o governo português, se todos nós temos de abandonar o nosso país para sermos devidamente reconhecidos?”, questiona Carlota de Bastos Carreira.














Comentários